Rememoração e Sonho


...

o silêncio, quase sempre, não é ausência de som: é música - à espera de quem a desperte para o riso, pranto... é no silêncio que as letrinhas brincam entre dedos. palavras se formam, (des)informam, sem noção de tempo. notas de um piano chegam de lugar nenhum e se agasalham em mim. jogo as letras para o alto como gotas de chuva no telhado. fragmentos de sonhos voam pelo chão... não, não há chão, é que o céu, cansado, deitou-se no capim ressequido. coisa boba, né? eu disse “coisa boba”?! me perdoem: quis dizer “coisa boa!” - coisa boa é quando o céu vem beijar o chão... ou um traço de saudade desperta a música de Pedro e Ana: que de há muito partiram em busca da Utopia.

perdoem-me se só agora tento fazer o poema que me pediram... mesmo assim, quase não sai...!

 

assobia o vento um canto maroto ou nada disso será?... notas a esmo ou ancestral medo?... a ti (que ora lês), os enigmas. nenhum deles decifro. assento-me e espero que se abram (ao sol do meio-dia, na duna alta) aos que desatam arreios nadando no sangue azul d’um céu que amei. nego, quase tudo... menos quando digo: amo vocês!

 

...

 

assobia o vento um canto maroto ou

nada disso será?... notas a esmo ou

ancestral medo?

 

a ti (que ora lês), os enigmas.

nenhum deles decifro.

assento-me e espero que se abram

 

(ao sol do meio-dia

na duna

alta)

 

aos que desatam arreios

nadando no sangue

azul d’um céu que

 

amei.

nego... quase tudo: menos quando digo

amo vocês!

 

Pedro

era pele. Ana era alma.

dois seres. um só sentir.

raios de sol e lua

ondas de um mesmo mar.

 



Escrito por batista filho às 18h22
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um ninho no alto da duna:

com os cílios tocar estrelas

com os pés, agitar o mar, na maré cheia.

(vê se não naufraga os sonhos do barquinho de papel!)

um ninho num pé de unha-de-gato

faz com que passaritos piem em segurança.

(vá alguém se aventurar entr’espinhos!)

um ninho entre as pedras

... assim acreditou o peixe-voador.

num vôo magistral despediu-se do mar.

num vôo magistral pintou-se de esperança

... estatelando-se nas pedras da Praia da Pedra do Sal.

(da tumba, que queria ninho, o mar refletido n’olhos de peixe morto.)

.

nos longos passeios que faziam, no fugaz frescor  da barra do dia, depois de perscrutar o que se escondia pra lá d’horizonte, jogavam-se de costas n’areia da mais alta duna, guardando nos olhos o brilho das estrelas sonolentas.

o grito do mar, o canto do vento,  o “tum-tum-tum” dos corações, o grasnar d’uma ou d’outra ave... veredas que conduziam à praia. depois, com o clarão do dia, volver à várzea, caminho de casa, café da manhã. caminhar (re)inventando caminhos, (re)visitando ninhos...

um dia, bem cedinho, antes da volta, subiram na Pedra Gigante. Mais abaixo perceberam um peixe-voador.

- que ninho mais esquisito esse peixe escolheu!

- que ninho que nada: não vê que é uma tumba?!

- ele tem os olhos abertos, mas não enxerga nadinha...

- com a gente acontece o mesmo?

- não sei. pode ser que sim, pode ser que não. Zé Preto diz que entre o “sim” e o “não” cabe o mundo inteiro. o que vamos fazer  com o peixe que já não voa mais?

- vamos deixar aqui mesmo.

afastaram-se pensativos. um bater de asas fez com que olhassem para trás.

- olha: o pássaro pegou o peixe!

- pra onde será que vai?

foram atrás. num cajueiro próximo a ave pousou num ninho onde piava um filhote esfomeado...

.

A várzea

somente “vage”

dos tempos de menino

cortada por inúmeros caminhos

simples veredas, abertas por bichos e homens

pra nós, era um vasto mundo.

Entre passos comedidos

ou correria desembestada

criávamos novas trilhas

pra reinos imaginários

(e se mais longe não íamos,

era porque a fome lembrava a hora do almoço).

A várzea

somente “vage”

dos tempos de menino

cortada por inúmeros caminhos

simples veredas

que nos levavam pra longe

e sempre nos traziam de volta pra casa

onde abríamos a porteira, fazíamos uma curva e entrávamos pela cozinha.

Hoje

que a casa

dos meus avós

não mais existe

(na fazenda Quitéria)

entre passos comedidos

sigo as veredas que andei quando menino.

Entre o carnaubal e o vento amigos

redescubro velhas trilhas adormecidas

pra reinos d’outrora, no coração da várzea

somente vage

do meu tempo de menino

... não um reino imaginário: minha origem e destino.

E um pouco além da porteira

a correr, o menino que fui.

Olha pra trás e me vê.

Parece não me reconhecer.

Sorri... e faz a curva.

Defronte a porteira, paro e vejo

a varanda da casa

com suas redes de tucum

agitadas pelo vento amigo

nossos nomes, escritos a carvão no madeirame, ano após ano

como a lembrar todos os natais passados juntos, mesmo quando estive ausente.

Não entrei. Saquei do bolso caneta e papel e comecei a escrever:

“A várzea

somente 'vage'

dos tempos de menino..."



Escrito por batista filho às 10h12
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diz-me, por favor.

acordes

acordam-me.

rasos d’água, os olhos, onde me afogo.

uma voz me embala e não distingo idioma

... mas diz(me) o que não posso

ou não sei dizer em dialeto algum.

 

acordes

acordam-me.

rasos d’água, os olhos, onde me afogo.

o piano, que nunca toquei

tocou-me desde cedo

na casa da velha louca

a caminho da escola

quando os pés tinham asas

asas eram rosas

rosas da roseira

roseira que tinha nome: o teu! -

que sempre me acompanhava, mesmo quando, aparentemente, só.

 

acordes

acordam-me.

rasos d’água, os olhos, onde me afogo.

há fogo onde me afogo. não nos olhos teus, que não lembro.

(culpa da voz que me embala e não distingo idioma?)

pergunto pra não ter resposta, como tantas vezes bati à porta, inutilmente

... pra que abrir a porta, se o clarão fugiu pela janela e pintou o céu de amarelo-louco?!

 

dormirás, ainda

ou esquecida da água-mortalha

transitas nas ruas por onde ando

(esquecido da cor dos teus olhos

do som do teu riso, mas não da falta que me fazes)?

 

diz-me, és tu, nos acordes que me acordam

nas madrugadas chuvosas

onde uma dor sem nome dirige meus dedos

nas teclas do piano que nunca toquei

mas ouvia, quando criança, à caminho da escola

na casa da velha, que dizíamos “louca”, sem nunca ter visto?

 

quero acordar, uma vez mais

com o barulhinho dos teus passos

com a música do teu riso

com o riso dos teus olhos

clareando o meu dia

já que os anos, mais de quarenta

só faz aumentar a saudade...

 

inda demora raiar o dia

em que chegarás, como sempre chegavas

trazendo o encanto da barra do dia

mesmo na mais tardia hora?

diz-me, por favor.



Escrito por batista filho às 01h52
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no cais: uma flor colhida e não entregue; um cão sem dono à espera da lua. nem um único passante: só o eco dos passos. passo e pego a flor. ao claro do fósforo efêmero o uivo do cão silencia o som dos passos. dorme a lua. acorda a flor. a noite de cão engoliu o passante. um sonho solitário aguarda o último trem... "que não vem, que não vem..." assobia o vento.

 

o rio prossegue, sem pressa. uma canoa: ao longe... e o canoeiro. “chap-chap”... é o remo: palheta, dedilhando as águas do rio. desanoitece. "é o dia, é o dia". carros e pedestres cruzam o rio pela ponte. canoas e o batelão apodrecem nas margens do rio. músicas cantadas por passantes despertam lembranças - que não enferrujam... nem os risos! – risos são risos, em todos os tempos... assim como as lágrimas. é manhã. manhazinha, sem lágrimas.

 

o cão sem dono atira-se nas águas poluídas. nada um pouco e depois retorna ao seco. sacode-se feliz. prossigo. em minha mão a flor  se despetala.  carros passam, pessoas passam. também passo. tudo passa. o rio prossegue. o vento canta. o mar espera, irrequieto, mais à frente, pra lá das dunas... é pra lá que eu vou.



Escrito por batista filho às 09h02
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donde venho?! - pouco importa, se digo ou calo. venho. d’algum lugar, que não daqui. e isso é tudo... ou quase. pouco deixei. tanto trouxe...! não digo da água que bebi. não digo da fome que passei... se passei! repara bem: as águas do Parnaíba já foram mais volumosas, lembra? mesmo assim não saciaram minha sede. eu estava lá quando derrubaram os pés de azeitona. mais de um século ao chão, em pouco tempo. acordei com o barulho do machado. nem abri a janela. ouvi os galhos caindo. sai sem me despedir. foi a primeira vez que fiz isso. e a única, até agora. nem escovei os dentes. só passei as mãos no rosto. enxuguei-as na calça curta. faz tempo, muito tempo. eu lembro: o impacto da lâmina do machado nos galhos vivos, o gemido das folhas num último vôo. eu lembro. o sol estava forte. era cedo, mas não pra todos. caminhando pela rua 7 de Setembro percebia a agitação nas casas, onde as pessoas se levantavam. no quintal da casa antiga os pés de azeitona pelo chão de areia branca. eu não vi, mas eu sabia.  e assim cheguei à Rua Vera Cruz, 696: a casa que foi minha, sem nunca ter sido. à tardinha, quando voltei, só vi os troncos, rente ao chão. mais de quarenta anos depois, nem isso.

donde venho? pouco importa, se digo ou calo. venho. ah, os pés de azeitona rebrotaram dentro de mim! duvida?! paciência. vez por outra, quando é estação, sinto a boca se encher d’água: gostosura de azeitona! - lembra?... mas tem dias que sinto dores por todo o corpo: lembranças duma lâmina afiada.



Escrito por batista filho às 23h19
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Ao longe o rio inda é o mesmo, acrescido d'outros risos e mágoas.

 

Banha-se em claros risos, mágoas profundas.

Calça-se de água. Seus pés não esperam por ele.

Donde está perde-os de vista, pr’além da curva

estreita. Estreita os olhos. Vê-se no bico d’uma ave

ferindo um peixe que estrebucha, mas não cai.

Gira/girando escamas prateadas chovem do céu.

Há-de ser pesadelo - peixe voar no bico de ave?!

 

Ir querendo ficar...

(Jamais conseguira resistir ao chamado do rio.)

Longe/perto o mugido do gado se junta à correnteza.

Mar a caminho ou caminho pro mar?

 

No meio do rio uma ponte a separar o tempo e pessoas.

 

Onde havia amplidão cercas retalham o horizonte.

 

Pega um atalho de água pro rio que chama.

Queima-lhe os olhos a quentura do atalho.

Ri das lágrimas que lhe molham o riso.

 

Sopra o vento na várzea.

 

Tira o canto do peito ao ouvir o perpassar da brisa

(uma vez mais) por entre os leques verdes dos carnaubais.

Vento trazendo coral de passarinhos em festa:

xexéu, canário, pássaro preto, rolinha, casaca de couro, bigodinho...

 

Zelosamente o Rio Parnaíba embala sementeira de sonhos.

 

(Ao longe o rio inda é o mesmo.

 

Brincam crianças por entre barcos, balsas e banzeiro.

Calça-se de água pra melhor andar nos igarapés, rio e mar.

 

Dali pr’além da última curva do rio

elevam-se as ondas do mar aberto.

Fecha os olhos. Abre as asas sobre a várzea.

Ganha o céu onde maçaricos e peixes-voadores

habitam desde o sempre. É só mais um pontinho no céu

incendiando um novo amanhecer... até sumir, dia'dentro.)



Escrito por batista filho às 00h47
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