Caminhando pelas Geraes

 

 

no alto das serras, até aonde a vista desalcança

navego nesse mar das Geraes

(recolho das lembranças tuas lágrimas

e as replanto numa vereda pequenina)

o cruzeiro, sombreando a erva rala

debalde tenta abraçar os que de há muito se foram

ou consolar os que pranteiam ausências

jazigos: laivos de desassossego

há quem chore seus mortos. também os pranteio, às vezes

mas não por julgá-los mortos: eles vivem, inclusive, dentro de mim

apresso o passo. o latido d’um cão

assusta o galo-da-serra, que voa pr’outro galho

trinca-ferro não é doido de trincar ferro

só trinca fruta... quando encontra

o canto do azulão pinta de azul o cinza do céu

um bando de pássaros pretos clareia o dia com o seu cantar

juriti jura amor ao beija-flor, que passa rápido

não sem antes jogar um beijo com a ponta da asa

canarinho, num canto estalado, constrói seu ninho

enquanto um gavião espreita - lá do alto

tropeço... desalinho meus pensamentos

sei que pássaro sem asas não voa. já voei

por ora, caminho. desaprendi o voo

não vejo carro de boi, mas ouço a sua dolência

na memória do vento: subindo e descendo a chapada

(vejo bois, a perder de conta. não resisto à tentação

... não faz diferença se em Minas, Piauí ou Goiás campeá-los

por que não? sabe-se lá, quando poderei fazê-lo de novo?!)

onde não se via agora se vê

motocicletas substituindo cavalos, no leva-e-trás dos trabalhadores

(percebo o quão obsoleto me tornei. rio de mim para eu mesmo

ao pensar que nenhuma buzina substitui o encanto de um relincho)

cada passo me torna parte da estrada

poeira entranhada na garganta e em minh’alma

minh’alma, onde está? (alma de minh’alma passeia ao longe)

nessas Geraes, por que tantas lápides, meu Deus?!... caminho(s) sem fim

“onde há fumaça”... há gente! sinto o cheiro... cozinham sonhos

com feijão, maxixe, galinha com quiabo, arroz com pequi

gritos, risos: crianças. puro contentamento no terreiro, lá embaixo

... sonhos, risos, feijão, maxixe, galinha, quiabo, arroz, pequi

tudo misturado na fumaça

(não gosto de maxixe, quiabo e pequi. há quem goste)

 sopra o vento de julho: ora forte, certeza de frio.

sopra o vento de julho: ora brisa, beijo ansiado

nas águas calmas, d’uma represa além

nuvens-crianças, fofinhas e esvoaçantes

desenham sonhos num céu de magia - azul, intenso e claro

... claro azul intenso espelhado em olhos cansados que se iluminam de Paz

lentamente me despeço das Geraes

(replantei tuas lágrimas numa vereda pequenina, ligeira, límpida, doce e bela... o sal?! – nas mãos e na boca, mas não há tristeza: só o teu sabor e cheiro de esperança e flores)