...

  

 

Não, não foi um "adeus!":

foi só um “tchau!”, um “até logo!”

... nem por isso doeu menos, meu Anjo.

 

Se penso nos dias como medida do tempo

convivemos pouco: quatro anos, apenas

... como coube tanto, em tão pouco tempo?!

 

Sem ter a preocupação de me ensinar nada

me ensinaste a compreender melhor as dificuldades alheias.

Sem ter a preocupação de me ensinar nada

me ensinaste que a vida de uma formiga,

de um pássaro, de um riacho ou de uma árvore torta

são tão importantes quanto a vida de qualquer mulher ou homem.

 

Me pergunto: como coube tanto, em tão pouco tempo?!

 

A percepção da tua presença, Amiga

chegava sempre um pouco antes dos teus passos na escada,

ou do teu riso e da tua voz nos meus ouvidos

... não há um só dia em que não espere tornar a ouvi-los.

 

Sabe, tombaste tão devagarinho, que pensei, por um momento

tratar-se de mais uma brincadeira tua.

Tombaste tão devagarinho, que pensei, por um momento

buscavas tão somente um dengo, nos braços desse velho amigo.

 

Depois de um brevíssimo sofrimento

pensei que a reanimação, que logrei intentar, surtira efeito.

Voltaste a respirar: a princípio, com sofreguidão

... depois, cada vez mais sutilmente, até cessar.

Enquanto isso, dizia do carinho por ti e acariciava o teu rosto.

Lá no fundo sabia que já não estavas mais aqui... mas como queria que estivesses!

Na corrida até o hospital em nenhum momento parei de falar contigo

... ou de pedir a Deus que não te levasse ainda, que esperasse um pouco mais.

Lá do fundo sabia que já não estavas mais aqui... mas como queria que estivesses!

 

(Se até Cristo chorou a falta do amigo Lázaro, por que comigo seria diferente?!)

 

Voltaste pras estrelas quando os bem-te-vis mais cantavam.

Voltaste pras estrelas na floração dos Ipês Amarelos.

Voltaste pras estrelas com o sol mais forte

(logo depois do meio-dia).

Foi no meu colo e no colo de minha filha

que sorveste pela última vez o ar que ora respiro.

 

Amiga querida:

foste na época em que o céu de Brasília é mais bonito e claro... e a secura mais cruel!

Os sabiás que cantam no Plano Piloto são os mesmos que alegram Planaltina

sabias disso? Não?! Sim?! Há, há, há!!!

Adoro o teu riso... aliás, todo mundo adora o teu riso.

Os bem-te-vis voam pra todo lado e cantam por tudo ou a pretexto de nada.

A cor que mais se destaca nesses passarinhos é o amarelo:

amarelo tão vivo quanto as flores do Ipê.

Sempre amei os Ipês, Amiga. Principalmente os Amarelos. Te falei sobre isso.

Além das árvores tortas do Cerrado, amavas, de um modo especial

a florada dos Ipês Amarelos – me confessaste um dia.

 

Até breve, Princesa!

Voltaste pras estrelas, viajante que és

... contudo, ninguém parte de todo

(nem tu, Juliana!).

De todo, ninguém fica

(tampouco eu).

 

Quem parte se parte. Leva e deixa - pedaços.

 

Quem fica, vai: na vontade!

Também se reparte em mil pe-da-ços, como a folhagem do Ipê, antes da florada.

... Até que um dia, quem parte e quem fica se (re)encontram.

E riem e choram, de pura felicidade. E correm e brincam. E contam das amizades partilhadas

... e mesmo sem asas, voam com os bem-te-vis até os Ipês Amarelos.

 

... Por tudo isso, Juju, jamais te direi “adeus!”

Digo “tchau!” ou “até logo!”

... nem por isso dói menos.