...

ao apagar de todas as vozes e risos

quando nem com a imaginação era capaz de acender uma estrela

desenhava no silêncio d'alma a música alegre dos saltimbancos.

da sua tristeza brotavam histórias de desassombrar.

quanto mais a dor dilacerava o peito

quanto mais apelava pra magia

até adormecerem

serenos.

e na manhã insinuada

a tristeza do palhaço alegrava a meninada.

 

já fora longe o tempo em que os ninara

quando à noite tornava sua as dores deles.

não, não fazia tanto tempo assim (lhe parecia)

mas agora assumiam a condução de suas vidas

(como ele próprio fizera um dia)

testando a força das asas

na visão entre o precipício e o infinito azul.

 

e na manhã insinuada

despido da magia que um dia alegrara a meninada

qual livro de histórias esquecido numa alta prateleira

ele queda, noite após noite, velando como sempre fizera:

se alegrando com as alegrias e chorando com as dores deles

... enquanto o tempo tinge os seus cabelos

mas não o brilho inquieto nos seus olhos.

 

quando não há lume na noite

quando a saudade mais forte acampa no peito

quando nem com a imaginação é capaz de acender uma estrela

desenha no silêncio d'alma a música alegre dos saltimbancos.

 

a manhã insinuada percebe o palhaço

que um dia alegrou a meninada

qual livro esquecido no alto da prateleira

... esquecido!? não de todo, não de tudo.

vez por outra

a filharada

despedida da infância

sem marcar hora

busca na sua voz as notas musicais de desassombrar a noite escura.

é quando o palhaço se despede de qualquer traço de tristeza

e ri e chora

de pura alegria!