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nada que te diga, coração! - será diferente do que o vento nos diz, desde o princípio de tudo. inda assim, coração! - digo e respondes num palpitar diferente, pois nossas vozes também cantam no entardecer, quando o vento, por um instante emudece... Ave, Maria...

 

quando fecho os olhos, coração! - fantasmas desassombram o passado: riem da maioria das lágrimas d’outrora. sorrimos também, coração. e é um riso bom: sem medo.

 

abro os olhos, coração. a realidade cobra o seu preço, gritado em incontáveis línguas e meios: sangue, saque, pedofilia... uma igreja a cada esquina: lobos a pastorear ovelhas. em cada esquina, um bar. garrafas esvaziadas sem matar a sede dos solitários... a velha ordem, travestida de novidade, a tudo e todos busca consumir, enquanto se faz noite no coração dos homens.

 

abro os olhos, coração! é noite, dentro de mim. apago as luzes da cidade, dentro de mim. deixo que a luz da lua e das estrelas me guiem, montanha acima. nuvens escuras por vezes tapam estrelas e lua, mas não o brilho dos vaga-lumes, que ora se aproximam, ora se afastam.

 

nada que te diga, coração! - será diferente do que o vento nos diz, desde o princípio de tudo. inda assim, coração! - digo e respondes num palpitar diferente, pois nossas vozes também cantam na noite, quando o vento grita mais alto, pois sabe não demora amanhecer.