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se há muito não te abraço
seja pela distância
seja pelo cansaço
deixa
uma vez mais
que as palavras
poucas palavras
apenas duas
dissipem o cansaço
encurtem a distância
te abracem
como jamais te abracei
... marcas que nos marcam como brasa.
não rubro ferro. brasa acendendo brasa ... como lágrima: ateando fogo na fala.
Categoria: Poesia
Escrito por batista filho às 08h14
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no cais: uma flor colhida e não entregue; um cão sem dono à espera da lua. nem um único passante: só o eco dos passos. passo e pego a flor. ao claro do fósforo efêmero o uivo do cão silencia o som dos passos. dorme a lua. acorda a flor. a noite de cão engoliu o passante. um sonho solitário aguarda o último trem... "que não vem, que não vem..." assobia o vento.
o rio prossegue, sem pressa. uma canoa: ao longe... e o canoeiro. “chap-chap”... é o remo: palheta, dedilhando as águas do rio. desanoitece. "é o dia, é o dia". carros e pedestres cruzam o rio pela ponte. canoas e o batelão apodrecem nas margens do rio. músicas cantadas por passantes despertam lembranças - que não enferrujam... nem os risos! – risos são risos, em todos os tempos... assim como as lágrimas. é manhã. manhazinha, sem lágrimas.
o cão sem dono atira-se nas águas poluídas. nada um pouco e depois retorna ao seco. sacode-se feliz. prossigo. em minha mão a flor se despetala. carros passam, pessoas passam. também passo. tudo passa. o rio prossegue. o vento canta. o mar espera, irrequieto, mais à frente, pra lá das dunas... é pra lá que eu vou.
Categoria: Rememoração e Sonho
Escrito por batista filho às 09h02
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Projeto Rádio Diversidade, realização: Utopia FM
Sábado, dia 12/07/2008, "tivemos" um show, dentro da programação do Projeto Rádio Diversidade, realização da Utopia FM, c/patrocínio do Ministério da Cultura. Alunos de sete escolas públicas de nossa cidade-satélite, Planaltina-DF, estiveram presentes e atuantes. Poesia, dança, músicas de estilos variados, representantes da identidade cultural brasileira. Cerca de dez anos de existência da Rádio Comunitária Utopia, remando contra a maré do projeto neoliberal... Particularmente, o momento mais emocionante, foi quando o cantor/compositor Baiano, pediu que eu prestasse uma atenção toda especial à música “Sertões, sertões”, de Wilson Aragão:
“Sou peregrino na estrada/Eu quero à vida voltar
Cicatrizando os caminhos/Renascer e plantar
Sou peregrino na noite/Meu luar não se foi
Muitos manos ficaram, nem tudo se foi
E ficaram guardados atrás da porta: meu fifó, meu cofo e a carabina
Minha sina de ser um filho da terra/e viver pelo mundo que não é meu
Ó Minas, mira bem para o resto da estrada de ferro
Quantos braços cravaram tantos dormentes
Para ouvir o trem na curva apitar/ E apitou e até nunca mais
Carcará cantando na estrada asfaltada
São os traços das eras chegadas pra quem duvidou
Urubus no céu, no canto alguns tabaréus
Resto de amor e respeito - eu tiro o chapéu
Arde ao sol de janeiro, planícies, montanhas
Coivaras acesas de pés de umburanas, chapadas queimadas
Pés-duros malhando nos licurizais
Trilham meus pés catingueiros ardentes estradas
Revejo algarobas, juremas queimadas
Tropéis de saudades, sertões e sertões /Calumbis, gravatás
Vasta serrania cinzenta/Vai pensamento, sonha
Abre as porteiras da terra/Vai pensamento, corta esse céu
Leva o amor e traz a poesia para o meu cancioneiro
Fico na estrada pisando a lembrança de tanta vivência
Sentindo a ausência dos meus companheiros
Que em tempos passados, pisaram na estrada e até nunca mais”
É, dia 23 de agosto tem mais, muito mais!!!
Escrito por batista filho às 08h16
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sabe o que o eu queria hoje, agora?! ter, por um instante que fosse, a fé simples de criança. de joelhos juntar as mãos, erguer os olhos em busca do sorriso d’outra criança, que escapuliria dos braços da mãe pra vir brincar comigo.
honestamente: não sei que raios de pensamentos foram esses que me ocorreram às 23h dessa segunda-feira...
Categoria: Prosa
Escrito por batista filho às 23h07
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nada que te diga, coração! - será diferente do que o vento nos diz, desde o princípio de tudo. inda assim, coração! - digo e respondes num palpitar diferente, pois nossas vozes também cantam no entardecer, quando o vento, por um instante emudece... Ave, Maria...
quando fecho os olhos, coração! - fantasmas desassombram o passado: riem da maioria das lágrimas d’outrora. sorrimos também, coração. e é um riso bom: sem medo.
abro os olhos, coração. a realidade cobra o seu preço, gritado em incontáveis línguas e meios: sangue, saque, pedofilia... uma igreja a cada esquina: lobos a pastorear ovelhas. em cada esquina, um bar. garrafas esvaziadas sem matar a sede dos solitários... a velha ordem, travestida de novidade, a tudo e todos busca consumir, enquanto se faz noite no coração dos homens.
abro os olhos, coração! é noite, dentro de mim. apago as luzes da cidade, dentro de mim. deixo que a luz da lua e das estrelas me guiem, montanha acima. nuvens escuras por vezes tapam estrelas e lua, mas não o brilho dos vaga-lumes, que ora se aproximam, ora se afastam.
nada que te diga, coração! - será diferente do que o vento nos diz, desde o princípio de tudo. inda assim, coração! - digo e respondes num palpitar diferente, pois nossas vozes também cantam na noite, quando o vento grita mais alto, pois sabe não demora amanhecer.
Categoria: Prosa
Escrito por batista filho às 08h26
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adoro poesia... contudo, nenhum verso, por mais importante e belo que seja! - será tão importante ou belo quanto a vida mais humilde.
é chegado novamente o tempo
de não mais versos escrever
mas sim, plantar gestos.
e se desses gestos
algum verso advir
qual cajueiro não plantado por mão humana
que sua sombra
descanse o cansaço
de quem caminha só
sua ramaria se converta em abrigo de passarinhos
... ou simples arbusto, beijado pelo vento
que ao lado de centenas de outros arbustos
evita que a chuva se transforme em enxurrada
e derrube a casa humilde, plantada ao sopé da serra.
Categoria: Poesia
Escrito por batista filho às 14h05
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“sonho de árvore não morre “, dissera à relva, num tempo anterior às águas deixarem de correr, represadas pelos homens.
pássaros brotam dos galhos secos. em meio à imensidão do lago cantam e catam peixes.
(noutro continente, num cemitério esquecido pelos homens, borboletas, pássaros e bichos passeiam por entre lápides tombadas. anjos de asas quebradas retornam ao pó.)
“sonho de árvore não morre... só a semente, pra que o sonho floresça e o vento se encarregue de espalhar miríades de sonhos a clarear noites, dantes medonhas“, dissera a velha árvore, num tempo anterior às águas deixarem de correr, represadas pelos homens. agora não diz nada. dos seus galhos secos brotam pássaros. o seu espírito paira na imensidão do lago.
Categoria: Prosa
Escrito por batista filho às 07h37
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donde venho?! - pouco importa, se digo ou calo. venho. d’algum lugar, que não daqui. e isso é tudo... ou quase. pouco deixei. tanto trouxe...! não digo da água que bebi. não digo da fome que passei... se passei! repara bem: as águas do Parnaíba já foram mais volumosas, lembra? mesmo assim não saciaram minha sede. eu estava lá quando derrubaram os pés de azeitona. mais de um século ao chão, em pouco tempo. acordei com o barulho do machado. nem abri a janela. ouvi os galhos caindo. sai sem me despedir. foi a primeira vez que fiz isso. e a única, até agora. nem escovei os dentes. só passei as mãos no rosto. enxuguei-as na calça curta. faz tempo, muito tempo. eu lembro: o impacto da lâmina do machado nos galhos vivos, o gemido das folhas num último vôo. eu lembro. o sol estava forte. era cedo, mas não pra todos. caminhando pela rua 7 de Setembro percebia a agitação nas casas, onde as pessoas se levantavam. no quintal da casa antiga os pés de azeitona pelo chão de areia branca. eu não vi, mas eu sabia. e assim cheguei à Rua Vera Cruz, 696: a casa que foi minha, sem nunca ter sido. à tardinha, quando voltei, só vi os troncos, rente ao chão. mais de quarenta anos depois, nem isso. donde venho? pouco importa, se digo ou calo. venho. ah, os pés de azeitona rebrotaram dentro de mim! duvida?! paciência. vez por outra, quando é estação, sinto a boca se encher d’água: gostosura de azeitona! - lembra?... mas tem dias que sinto dores por todo o corpo: lembranças duma lâmina afiada.
Categoria: Rememoração e Sonho
Escrito por batista filho às 23h19
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retirados os selos, moeda de troca por alfenins
as cartas, plantadas no fundo d’alma
ali permaneciam, à espera d’outras cartas
dando frutos: sonhos, por vezes... saudade, sempre
retirados os selos, o que fazer dos envelopes?
desfazer, (re)fazer - chapéu e barco
dobras, dobraduras
cartas singravam mares
nascidos d’água da chuva
envelopes prosseguiam viagem
despertavam visagens, criavam miragens nas noites insones
até o bueiro mais próximo... ou até o rio das ilusões meninas
gritos, risos ecoando na varanda do lembrar
onde brincavam de cabra-cega
... e tudo porque um dia
um selo
uma carta
num envelope
Categoria: Poesia
Escrito por batista filho às 00h52
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tempo, tempo
tanto, tanto
lembro
não de todo
um pouco
de tudo
tanto tempo
lembro tanto
de tudo
um pouco
não de todo
um pouco
de tudo
vento, vento, venta leve, não apague as marcas n'areia, como o tempo apagou um rosto da minha memória. vento, vento... não é o vento! - lembrança d'um riso, ressuscitando pegadas n'areia... pegadas n'areia de quem erguia castelos nas nuvens: castelos nas nuvens nas noites de lua cheia.
Categoria: Poesia
Escrito por batista filho às 20h56
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... o sonho desperta os pés da criança que dorme sorrindo
... uma nuvem branquinha lava/leva o sono
- uma palavra é um verso, é um verso
quando música, mesmo sem intento -
assim dizia a palavra impressa, a correr.
outra, recém-articulada, com medo dos olhos de ler
balbuciava uma prece, como quem morre de sede no mar.
o vento, sem nó nem laçada, desfazia qualquer incerteza:
um verso a correr é uma palavra sem pressa
acorde livre no ar, sem pauta ou maestro.
verso, palavra (des)impressa no mar
barquinho de papel
prece sedenta
de olhos de ler.
... agora é seguir alguns versos
mesmo sem nexo
só alguns versos
simples acordes
fragmentos
d’um poema
d’uma canção
... fragmentos de vidas
(fragmentos de vidas, vidas serão?!).
agora é seguir os versos que arranham o céu.
agora é seguir os versos, heréticos versos
sem métrica, pretensão ou rima
a dissipar o breu da alienação.
Categoria: Poesia
Escrito por batista filho às 01h54
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...
andava
como sempre ando
os pés me levando numa direção
e a mente trazendo retalhos do mundo
braços e mãos, movimentos próprios
até os olhos perceberem um livro
um livro amarfalhado
folheado pelo vento
pés, mente, braços e mãos: tudo pára
versos declamados pelo vento
pra quase ninguém ouvir
apanho o livro
minh’alma reconhece um poema incompleto
que a memória ressuscita por inteiro
numa lágrima sem pudor
meus pés me levam numa direção
minhas mãos seguram versos
minh’alma mira o infinito
o mar toca meus olhos
abraço o mundo
num poema
que
não
pode
ser esquecido
Categoria: Poesia
Escrito por batista filho às 01h06
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...
a pele
(ela diria)
é como o céu.
necessito estrelas
... sem elas, eu me perco.
a alma
(ela diria)
é como a terra, o rio, o mar
o vento nas carnaubeiras
ou galhos partidos, que revivem nas chamas
(chamas da fogueira que em volta permanecíamos
a ouvir o crepitar das vozes, que só ouvimos no fogo).
a pele
(ela diria)
é a ilusão de que preciso, ainda.
a alma é o sonho, sem o qual não vivo.
enquanto atiçava o fogo pra alumiar a noite escura, ele sorria, ao pensar no que ela diria, se ali estivesse, pois sempre fora ela que inventava estrelas no céu, quando no céu, nenhuma estrela havia.
Categoria: Poesia
Escrito por batista filho às 09h26
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Descobrir-se
(extraído do baú de minha adolescência)
Brancos navegantes criaram rotas
atrás de riquezas e terras ignotas.
Um dia deram com os costados
nesses rincões ensolarados.
Não sei ao certo, sonho ou desvario...
Certeza mesmo, o mês: abril.
Da terra tomaram posse, pr’um rei dum reino distante.
Depois partiram, rezada uma missa, pouco antes.
Por onde passaram, armaram um circo de horrores
(novos mares e terras, semeando vícios e tumores).
Ouro, prata, gente e especiarias
trocaram por mil quinquilharias.
Quando acharam por bem, retornaram pra terra do pau-brasil.
Rebatizaram e dividiram Pindorama, sem combinar com o gentio.
Em nome de Deus e da civilidade,
negros e ameríndios foram privados da liberdade.
Haja exploração e sofrimento pra fazer duma colônia, reino...
Ressalte-se as lutas de resistência, encetadas de todo jeito:
uma a uma sufocadas - registros apagados da história,
pra que o povo nunca tivesse nada... nem memória!
Não conseguiram apagar tudo. Alguma coisa sempre se salva:
marcas de luta e de dor, indeléveis, no corpo e na alma.
Quando os filhos d’África se tornaram um peso pro reinado,
foram “libertos”; já podiam voltar pra casa - a nado!
Os nativos que restaram, depois da cristianização,
estrangeiros na própria terra, inda hoje, sonham sonhos de nação.
Tantos anos, mais de quinhentos, de desvario e sonho,
a elite, sempre insatisfeita e o povo mais tristonho.
Chega de sanguessugas: pseudonobres
balançando as caudas pr’outras metrópoles!
(Não se dando conta que mil conchavos,
fizeram deles também escravos...)
Quem trai o seu povo em troca do valetudoter
- a terra-mãe -, numa cova rasa, mostrará a ilusão do poder.
Brasil, de tantos brados, eterno gigante entorpecido:
teus negros, teus índios, teus filhos – carecem ser ouvidos.
Brasil, de tanta terra e poucos donos:
chega de desvarios - sufocando sonhos!
Categoria: Poesia
Escrito por batista filho às 07h05
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...
Ao longe o rio inda é o mesmo, acrescido d'outros risos e mágoas.
Banha-se em claros risos, mágoas profundas.
Calça-se de água. Seus pés não esperam por ele.
Donde está perde-os de vista, pr’além da curva
estreita. Estreita os olhos. Vê-se no bico d’uma ave
ferindo um peixe que estrebucha, mas não cai.
Gira/girando escamas prateadas chovem do céu.
Há-de ser pesadelo - peixe voar no bico de ave?!
Ir querendo ficar...
(Jamais conseguira resistir ao chamado do rio.)
Longe/perto o mugido do gado se junta à correnteza.
Mar a caminho ou caminho pro mar?
No meio do rio uma ponte a separar o tempo e pessoas.
Onde havia amplidão cercas retalham o horizonte.
Pega um atalho de água pro rio que chama.
Queima-lhe os olhos a quentura do atalho.
Ri das lágrimas que lhe molham o riso.
Sopra o vento na várzea.
Tira o canto do peito ao ouvir o perpassar da brisa
(uma vez mais) por entre os leques verdes dos carnaubais.
Vento trazendo coral de passarinhos em festa:
xexéu, canário, pássaro preto, rolinha, casaca de couro, bigodinho...
Zelosamente o Rio Parnaíba embala sementeira de sonhos.
(Ao longe o rio inda é o mesmo.
Brincam crianças por entre barcos, balsas e banzeiro.
Calça-se de água pra melhor andar nos igarapés, rio e mar.
Dali pr’além da última curva do rio
elevam-se as ondas do mar aberto.
Fecha os olhos. Abre as asas sobre a várzea.
Ganha o céu onde maçaricos e peixes-voadores
habitam desde o sempre. É só mais um pontinho no céu
incendiando um novo amanhecer... até sumir, dia'dentro.)
Categoria: Rememoração e Sonho
Escrito por batista filho às 00h47
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