...

A poesia pode ser a mão que revida um golpe, sem sequer erguer um dedo.

 

Não importa a procela,

A solidão d’uma noite

Vazia de estrelas ou luar.

Entre vagalhões e calmarias,

Gritando com medo e êxtase,

A poesia, um navegar impreciso,

Realimenta a esperança na manhã que se anuncia.

 

É preciso:

 

Para além das lições do dia-a-dia,

Reencontrar as que jazem adormecidas;

Entender as razões que obscurecem o nosso

Caminho, mas não se deter, por causa delas.

Isso, jamais!

Somos navegantes das estrelas: timoneiros do próprio destino,

O sonho de nós mesmos, aprisionados em invólucros de barro.

 

Viver?! Não é preciso: é imprescindível! – assim como a Poesia!!!

 

................................

 

Amigas e Amigos: estarei (mais) ausente. Um abraço fraterno a quem passar por aqui.



Escrito por batista filho às 21h19
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...

 

uma casa

de taipa

ou

de pedra

frágil taipa

dura pedra

é antes

e sempre

reflexo d'um sonho partilhado.

 

numa casa

sonho ampliado

por menor que seja

cabe o mundo inteiro

qual poema

que diga do botão

(promessa de flor)

qual bordado

no pano barato

que indelével conserva

o milagre de mãos vincadas.

...

que direi das casas que suspiram saudade dos passos que ecoam em mim?!



Categoria: Poesia
Escrito por batista filho às 23h34
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...

nunca culpei o povo judeu pelo assassinato de Jesus, o Cristo, filho de Maria e José. muitos crêem que Ele nem existiu. identifiquei-me com Sua causa desde há muito. quando criança li sobre Anne Frank. muitos não crêem em sua existência. sofri e solidarizei-me com ela. li artigos/livros e assisti documentários/filmes sobre o Holocausto. muitos acreditam que o Holocausto não passa de um embuste. sei que a barbárie humana foi responsável pela morte de milhões de judeus - e não é por causa da grande mídia, continuamente discorrendo sobre o assunto -, que nunca esquecerei esse fato: assim como jamais esquecerei o assassinato de milhões e milhões de nativos das Américas em nome da ganância e de uma falsa fé apregoada por "católicos" e "protestantes"... isso sem falar nas populações de África e Austrália... nem por isso culpo os povos europeus ou católicos e protestantes, pelo sangue derramado em todos os quadrantes do mundo... poderia parar por aqui, se a memória não guardasse os sonhos irrealizados de milhares e milhares de habitantes de Hiroshima/Nagasaki (1945) ou milhões de sonhos vietnamitas "desfolhados" (década de 60). nem isso me fez culpar o povo norte-americano. obviamente existem pessoas responsáveis por todas essas atrocidades, mas não posso julgar todo um povo pelos desatinos ordenados e construídos por seus dirigentes e disseminados mentirosamente pelos meios de comunicação, como foi o caso da "existência" de armamentos de destruição em massa, que "justificou" a invasão do Iraque...

sempre acreditei que os judeus têm direito ao seu próprio território, ao seu próprio país. assim como o povo palestino. ou qualquer outro povo. contudo, é inaceitável ver/ouvir/ler a grande mídia reproduzindo que Israel tem razão nesse novo genocídio. lamento. e com tristeza reconheço que aprenderam direitinho a lição com nazistas e todos aqueles e aquelas, que ao julgarem estar acima dos outros, por acreditarem que são melhores ou mais fortes, na realidade desumanizam-se e demonstram o quão fracos são.

por uns e outros, humildemente rezo. e no microcosmo do meu mundo - luto -, diuturnamente, contra tais fatos.

FOLHAS ETÉREAS (republicação)

qual a diferença do choro de uma mãe judia para o choro de uma mãe palestina?

A ciência nos faz conhecer melhor as estrelas, mas não amá-las. O egoísmo nos impede de reconhecer a humanidade... nos outros!!!

Não posso chorar todas as lágrimas, ou sorrir todos os risos, ou sonhar todos os sonhos do mundo. Por isso, quando alguém morre, morrem sonhos - jamais sonhados; risos se transformam em ríctus de dor. E com isso, também morro, um pouco, num mar de lágrimas tristes.

Não há virtude na guerra, nem heroísmo em matar. As armas?! As armas são cegas: não distinguem um canhão - de uma mãe, com seu filho no colo. Guerreiros são cegos e covardes: deixam que outros enxerguem por eles, o que não suportariam enxergar; deixam que outros justifiquem, o que não ousariam justificar. Guerreiros não plantam nem colhem arroz, feijão ou trigo. Semeiam destruição e selvageria. Colhem medalhas e ódios. Guerreiros obedecem aos seus senhores - que sequer vão aos campos de batalha -, pois são mais covardes ainda: tremem de medo de enfrentar a vida! (Mortos insepultos, tais senhores tentam suprimir qualquer expressão da vida, porque sabem - toda guerra é suicida.)

Não posso chorar as lágrimas, ou sorrir os risos, ou sonhar todos os sonhos dos homens. Posso dizer "não!" a quem assassina, rouba e mente em nome da liberdade, justiça e democracia. Posso escrever essas palavras nas folhas etéreas do vento, na esperança que alcance corações e mentes de boa vontade.



Escrito por batista filho às 14h20
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...

nada que te diga

por hora

mudará

a cor do céu

a insônia inquieta

o movimento das marés

o vôo das borboletas e pássaros

... o rumo dos nossos passos trôpegos

 

contudo

houve um tempo

em que dizíamos

palavras de pintar o céu

da cor que nossa imaginação sonhasse

houve um tempo

em que as noites eram pequenas

para o brilho d’estrelas em nosso olhar

houve um tempo

em que o mar cabia em nossas lágrimas

e mesmo sem asas, voávamos com borboletas e pássaros

 

... houve um tempo

 

por hora, nada que te diga mudará

a cor do céu

a insônia inquieta

o movimento das marés

o vôo das borboletas e pássaros

... ind'assim

precisamos seguir

mesmo com passos trôpegos

ao invés de quedarmos

pelo que se foi



Categoria: Poesia
Escrito por batista filho às 07h38
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...

no lugar dos braços

pinte um par de asas

(forte o bastante)

que te leve

ao alto mais alto.

e de lá, voe direto

pr’onde teu coração bate mais forte.

 

se não conseguir, tente de novo.

 

no lugar dos braços

pinte um par de asas

(frágil e belo)

que te leve

à flor mais solitária

do jardim primeiro.

 

se não conseguir, chorar, pra quê?

dê um abraço em quem você ama.

se a distância for maior que o alcance dos braços

feche os olhos. jogue um beijo ao vento.

depois, vire-se de lado e adormeça em Paz.

deixe-se embalar pelo sonho. no sonho a gente voa, mesmo sem asas, direto pr’onde o coração bate mais forte. no sonho, raios de sol dançam nas gotas de orvalho, que inclinam as pétalas da flor mais bela. no sonho a gente desenha o amanhecer de um dia sem medo. no sonho a gente replanta a Esperança e o Ânimo de Luta para tornar concreta a Utopia tão sonhada: que toda criança ou velho, mulher ou homem jamais tornem a ser presas da ignorância do “ter”.



Categoria: Poesia
Escrito por batista filho às 22h32
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sobre um mesma tema: 10 anos depois

que sabes da vida

que temes na morte

se a morte, qual noite que passa

simples passagem pr'outro dia?

 

que sabes do barco

que tem o barqueiro

preso à vara que brande

barco e barqueiro numa mesma corrente

que desce dos montes, atravessa os vales

nas noites medonhas, de tristes insônias

ansiando manhãs perdidas nas tardes... que não voltam jamais?

 

pobre vareiro

sem remo, sem vela

verso sem rima

cavalo sem crina

noite sem lua

navegando o horizonte

enquanto o vento grita:

- adeus, Caronte!

e ele - olhando pra ela

tecendo uma vela com olhos de lua

rimando o verso na quilha do barco

do aço do peito esculpindo um grito no vento

até se derramar na última gota de chuva... pra lá do horizonte.

 

nunca, nunca diga "tarde!"

nunca tarde, sempre há tempo.

há um barco (a tua espera)

ao apagar da última estrela.

 

conheço o barco e o barqueiro.

n’outro tempo, n’outra vida

fui eu a esculpi-lo, era eu a conduzi-lo.

 

hoje, nunca só, mesmo sozinho

gota d'água desse rio, vejo passar barco e barqueiro.



Categoria: Poesia
Escrito por batista filho às 08h18
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...

o silêncio, quase sempre, não é ausência de som: é música - à espera de quem a desperte para o riso, pranto... é no silêncio que as letrinhas brincam entre dedos. palavras se formam, (des)informam, sem noção de tempo. notas de um piano chegam de lugar nenhum e se agasalham em mim. jogo as letras para o alto como gotas de chuva no telhado. fragmentos de sonhos voam pelo chão... não, não há chão, é que o céu, cansado, deitou-se no capim ressequido. coisa boba, né? eu disse “coisa boba”?! me perdoem: quis dizer “coisa boa!” - coisa boa é quando o céu vem beijar o chão... ou um traço de saudade desperta a música de Pedro e Ana: que de há muito partiram em busca da Utopia.

perdoem-me se só agora tento fazer o poema que me pediram... mesmo assim, quase não sai...!

 

assobia o vento um canto maroto ou nada disso será?... notas a esmo ou ancestral medo?... a ti (que ora lês), os enigmas. nenhum deles decifro. assento-me e espero que se abram (ao sol do meio-dia, na duna alta) aos que desatam arreios nadando no sangue azul d’um céu que amei. nego, quase tudo... menos quando digo: amo vocês!

 

...

 

assobia o vento um canto maroto ou

nada disso será?... notas a esmo ou

ancestral medo?

 

a ti (que ora lês), os enigmas.

nenhum deles decifro.

assento-me e espero que se abram

 

(ao sol do meio-dia

na duna

alta)

 

aos que desatam arreios

nadando no sangue

azul d’um céu que

 

amei.

nego... quase tudo: menos quando digo

amo vocês!

 

Pedro

era pele. Ana era alma.

dois seres. um só sentir.

raios de sol e lua

ondas de um mesmo mar.

 



Categoria: Rememoração e Sonho
Escrito por batista filho às 18h22
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.

um ninho no alto da duna:

com os cílios tocar estrelas

com os pés, agitar o mar, na maré cheia.

(vê se não naufraga os sonhos do barquinho de papel!)

um ninho num pé de unha-de-gato

faz com que passaritos piem em segurança.

(vá alguém se aventurar entr’espinhos!)

um ninho entre as pedras

... assim acreditou o peixe-voador.

num vôo magistral despediu-se do mar.

num vôo magistral pintou-se de esperança

... estatelando-se nas pedras da Praia da Pedra do Sal.

(da tumba, que queria ninho, o mar refletido n’olhos de peixe morto.)

.

nos longos passeios que faziam, no fugaz frescor  da barra do dia, depois de perscrutar o que se escondia pra lá d’horizonte, jogavam-se de costas n’areia da mais alta duna, guardando nos olhos o brilho das estrelas sonolentas.

o grito do mar, o canto do vento,  o “tum-tum-tum” dos corações, o grasnar d’uma ou d’outra ave... veredas que conduziam à praia. depois, com o clarão do dia, volver à várzea, caminho de casa, café da manhã. caminhar (re)inventando caminhos, (re)visitando ninhos...

um dia, bem cedinho, antes da volta, subiram na Pedra Gigante. Mais abaixo perceberam um peixe-voador.

- que ninho mais esquisito esse peixe escolheu!

- que ninho que nada: não vê que é uma tumba?!

- ele tem os olhos abertos, mas não enxerga nadinha...

- com a gente acontece o mesmo?

- não sei. pode ser que sim, pode ser que não. Zé Preto diz que entre o “sim” e o “não” cabe o mundo inteiro. o que vamos fazer  com o peixe que já não voa mais?

- vamos deixar aqui mesmo.

afastaram-se pensativos. um bater de asas fez com que olhassem para trás.

- olha: o pássaro pegou o peixe!

- pra onde será que vai?

foram atrás. num cajueiro próximo a ave pousou num ninho onde piava um filhote esfomeado...

.

A várzea

somente “vage”

dos tempos de menino

cortada por inúmeros caminhos

simples veredas, abertas por bichos e homens

pra nós, era um vasto mundo.

Entre passos comedidos

ou correria desembestada

criávamos novas trilhas

pra reinos imaginários

(e se mais longe não íamos,

era porque a fome lembrava a hora do almoço).

A várzea

somente “vage”

dos tempos de menino

cortada por inúmeros caminhos

simples veredas

que nos levavam pra longe

e sempre nos traziam de volta pra casa

onde abríamos a porteira, fazíamos uma curva e entrávamos pela cozinha.

Hoje

que a casa

dos meus avós

não mais existe

(na fazenda Quitéria)

entre passos comedidos

sigo as veredas que andei quando menino.

Entre o carnaubal e o vento amigos

redescubro velhas trilhas adormecidas

pra reinos d’outrora, no coração da várzea

somente vage

do meu tempo de menino

... não um reino imaginário: minha origem e destino.

E um pouco além da porteira

a correr, o menino que fui.

Olha pra trás e me vê.

Parece não me reconhecer.

Sorri... e faz a curva.

Defronte a porteira, paro e vejo

a varanda da casa

com suas redes de tucum

agitadas pelo vento amigo

nossos nomes, escritos a carvão no madeirame, ano após ano

como a lembrar todos os natais passados juntos, mesmo quando estive ausente.

Não entrei. Saquei do bolso caneta e papel e comecei a escrever:

“A várzea

somente 'vage'

dos tempos de menino..."



Categoria: Rememoração e Sonho
Escrito por batista filho às 10h12
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...

... O presente

sempre corre para o que virá

ou para o que se foi.

O futuro

quando chega

num aceno, já se vai

qual bolha de sabão, tangida pelo vento

se desmanchando num espinho

ou na palma da mão.

 

O que parece sabedoria de tosco cantador

são crenças, sabenças acumuladas

transmitidas pelo cantar.

 

Não conto novidades

simples eco de alegrias e dores

feitos e desfeitos, de pessoas simples.

 

Às vezes choro

quando canto a dor alheia.

A dor alheia me dói

pois se torna também minha.

 

Às vezes

julgam-me louco

quando gargalho sozinho.

Sozinho nunca estou: tenho as multidões dos solitários

nas feiras, nas praças, nos bares, nas zonas

nas roças, nos cemitérios, nos lares...

 

Tocador da beira do cais

ouço o canto do lugar:

mulheres nas margens do rio, na lavação de todo dia

catador de caranguejo, dançando na lama

barrigudinhos nadando no banzeiro da inocente alegria

... pessoas à margem da vida, sem vontade de cantar

(dessa vida, só querendo pular!).

 

De tanto ver gente

cantando ciranda

cantando dor

contando piada

contando dor

tocando gado

tocando dor

... aprendi ofícios de valia:

sob o toque da sanfona

conto mil histórias

espanto tristeza com cantoria!

 

(enxerto do conto "o sanfoneiro", das minhas lembranças recorrentes.)

... nada que te diga, coração, poderá preencher tua vontade/disposição de “bate-bater” como as marés... contudo, coração, sabemos que um dia haverá um descompasso maior e por fim, silenciarás. será aí, nesse instante, que bateremos asas, despidos das penas que erroneamente pensávamos necessitar no vôo... nada que te diga, coração, parece fazer diferença, ante leis injustas que protegem hipócritas que mutilam, violam e matam mulheres e homens, anciães, crianças e sonhos... não são palavras destituídas de sentido, coração. versejamos para manter a sanidade e não esquecer do porquê estamos aqui. bate, coração, como as marés, como o vento nos carnaubais. bate, coração: mantém viva a Esperança que sempre me animou. bate, coração: ajuda-me a não deixar que a justa indignação se transforme em ódio ou descrença na vida. o ódio nada constrói e a descrença imobiliza. ambos contribuem para que os hipócritas continuem o seu joguinho de extirpar a humanidade em nós. bate, coração: há tanto por fazer!



Categoria: Poesia
Escrito por batista filho às 20h50
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...

ao apagar de todas as vozes e risos

quando nem com a imaginação era capaz de acender uma estrela

desenhava no silêncio d'alma a música alegre dos saltimbancos.

da sua tristeza brotavam histórias de desassombrar.

quanto mais a dor dilacerava o peito

quanto mais apelava pra magia

até adormecerem

serenos.

e na manhã insinuada

a tristeza do palhaço alegrava a meninada.

 

já fora longe o tempo em que os ninara

quando à noite tornava sua as dores deles.

não, não fazia tanto tempo assim (lhe parecia)

mas agora assumiam a condução de suas vidas

(como ele próprio fizera um dia)

testando a força das asas

na visão entre o precipício e o infinito azul.

 

e na manhã insinuada

despido da magia que um dia alegrara a meninada

qual livro de histórias esquecido numa alta prateleira

ele queda, noite após noite, velando como sempre fizera:

se alegrando com as alegrias e chorando com as dores deles

... enquanto o tempo tinge os seus cabelos

mas não o brilho inquieto nos seus olhos.

 

quando não há lume na noite

quando a saudade mais forte acampa no peito

quando nem com a imaginação é capaz de acender uma estrela

desenha no silêncio d'alma a música alegre dos saltimbancos.

 

a manhã insinuada percebe o palhaço

que um dia alegrou a meninada

qual livro esquecido no alto da prateleira

... esquecido!? não de todo, não de tudo.

vez por outra

a filharada

despedida da infância

sem marcar hora

busca na sua voz as notas musicais de desassombrar a noite escura.

é quando o palhaço se despede de qualquer traço de tristeza

e ri e chora

de pura alegria!



Categoria: Poesia
Escrito por batista filho às 19h20
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"dá-me um verso

miudinho

alegre

que nunca morra.

 

dá-me um verso

como quem dá um copo d’água fresca

ao sol do meio-dia.

 

dá-me um verso

que eu te dou os meus tesouros

um riso e uma lágrima."

 

...

 

 

dar um verso

antes que o riso se desvaneça

e a lágrima seque

 

dar um verso

como quem dá um copo d’água fresca

ao sol do meio-dia

 

noutras palavras, foi isso o que a criança pediu. atendeu-a. não com um único verso, mas sim com dois, três... muitos versos - um poema inteiro!

durante anos, todas as noites, contou histórias pra ela. ao longo do tempo ganhou muitos abraços. presenciou seu choro e riso por muitas vezes. contudo, nunca esqueceu aquela noite em que ela lhe pediu, não uma história, mas sim um verso. naquela noite também ganhou um abraço carinhoso... além da lágrima que lhe caiu na camisa e do riso, que fez morada no seu coração.



Escrito por batista filho às 17h24
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...

certos “dons” tenho perdido ao longo do tempo. decorar textos foi um deles. o versejar é outro: cada dia mais escasso. a audição já não é tão boa. a visão encurta. aos poucos emudeço. mas não diminui a vontade de lutar – e luto! – pela Utopia. por ora, canalizo minhas energias nessa luta diuturna, pois sinto que o tempo, o meu, cumpre-se, como tem que ser. tempo de homens e mulheres: que se perdem e se encontram. tempo de mediocridade e consumismo: poucos com muito, muitos com tão pouco... onde versos teimosos por vezes brotam, resistem, alimentados por Sonhos d’outros versos, d’outras gentes, distantes e/ou próximas. independente de qualquer coisa, o que há de bom valorizo: cada vez mais. e como existem coisas boas! - vamos, pois, a alguns versos, apanhados numa manhã, quase madrugadinha.

 

dizes tanto da pele, que às vezes não percebes

o menor dos teus versos, por dizer

(que recusas dizer)

linha do horizonte, rompida

que te desnuda

te deixa confusa.

 

não falas de saudade... dizes do arrepio na pele

das altas montanhas que te escondem.

 

(distâncias, profundezas abissais... o que é “longe” ou “perto”

quando almas se buscam nas dobras do tempo?

... quão profunda ou rasa, uma lágrima

quando o amor chega ou se vai?

ou quando sentimos que o mundo

dos nossos sonhos primaveris

é diuturnamente açoitado

pela mediocridade

e intolerância?!)

 

a saudade que choras, sem pronunciá-la

não é pela falta dos passos d’outrora, que amaste e te amaram... percebes?

 

o aparente silêncio que se seguiu ao teu nascimento

(hiato entre o grito de tua mãe e do teu próprio grito)

respirar da vida: raso e profundo.

nesse instante, bem-te-vis cantaram, acordei.

meus olhos de sono não guiaram minhas mãos

que sangraram ao colher a rosa, que jamais te dei.

 

na maré-cheia, no outono da tua existência, nesse plano de ilusão

quando o silêncio sepultou os risos e o tempo enxugou as lágrimas

... disseste conhecer a (des)importância dos versos

quando palavras inexistem para pintar tempestades de areia

que açoitam a rosa colhida... e jamais entregue.

tudo o mais, que omitiste, não por falta de palavras, mas por medo

medo de transpor a linha do horizonte - que te desnuda, te deixa confusa

mostra o que verdadeiramente sentes... ou és.

 

disseste tanto, disseste pouco, de ti, para os outros, de ti, para tu mesma

- com tanta eloqüência e beleza, que quase acreditei

... não fora eu ter os olhos cheios de areia e de lembranças

- pétala a pétala -, quais passos, que nos afastaram de nós.

 

digo, sem nenhum travo de dor:

só a sombra do que fomos lembra as asas que tivemos

quando o horizonte, antes mostrava que escondia, sonhos d’estrelas. lembras-te?

se não lembras, paciência... nem toda gota d’água do mar sabe que um dia foi lágrima.

recebe, pois, a lembrança daquela rosa.

deixa que o vento primevo te fale

ao ouvido, o que nunca te disse.

deixa que as penas do teu versejar

sejam as mesmas penas que te façam voar prá lá do horizonte

onde o teu riso acenderá o sol de um Novo Tempo.



Categoria: Poesia
Escrito por batista filho às 08h22
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diz-me, por favor.

acordes

acordam-me.

rasos d’água, os olhos, onde me afogo.

uma voz me embala e não distingo idioma

... mas diz(me) o que não posso

ou não sei dizer em dialeto algum.

 

acordes

acordam-me.

rasos d’água, os olhos, onde me afogo.

o piano, que nunca toquei

tocou-me desde cedo

na casa da velha louca

a caminho da escola

quando os pés tinham asas

asas eram rosas

rosas da roseira

roseira que tinha nome: o teu! -

que sempre me acompanhava, mesmo quando, aparentemente, só.

 

acordes

acordam-me.

rasos d’água, os olhos, onde me afogo.

há fogo onde me afogo. não nos olhos teus, que não lembro.

(culpa da voz que me embala e não distingo idioma?)

pergunto pra não ter resposta, como tantas vezes bati à porta, inutilmente

... pra que abrir a porta, se o clarão fugiu pela janela e pintou o céu de amarelo-louco?!

 

dormirás, ainda

ou esquecida da água-mortalha

transitas nas ruas por onde ando

(esquecido da cor dos teus olhos

do som do teu riso, mas não da falta que me fazes)?

 

diz-me, és tu, nos acordes que me acordam

nas madrugadas chuvosas

onde uma dor sem nome dirige meus dedos

nas teclas do piano que nunca toquei

mas ouvia, quando criança, à caminho da escola

na casa da velha, que dizíamos “louca”, sem nunca ter visto?

 

quero acordar, uma vez mais

com o barulhinho dos teus passos

com a música do teu riso

com o riso dos teus olhos

clareando o meu dia

já que os anos, mais de quarenta

só faz aumentar a saudade...

 

inda demora raiar o dia

em que chegarás, como sempre chegavas

trazendo o encanto da barra do dia

mesmo na mais tardia hora?

diz-me, por favor.



Categoria: Rememoração e Sonho
Escrito por batista filho às 01h52
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.

se há muito não te abraço

seja pela distância

seja pelo cansaço

deixa

uma vez mais

que as palavras

poucas palavras

apenas duas

dissipem o cansaço

encurtem a distância

te abracem

como jamais te abracei

... marcas que nos marcam como brasa.

não rubro ferro. brasa acendendo brasa

... como lágrima: ateando fogo na fala.



Categoria: Poesia
Escrito por batista filho às 08h14
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...

no cais: uma flor colhida e não entregue; um cão sem dono à espera da lua. nem um único passante: só o eco dos passos. passo e pego a flor. ao claro do fósforo efêmero o uivo do cão silencia o som dos passos. dorme a lua. acorda a flor. a noite de cão engoliu o passante. um sonho solitário aguarda o último trem... "que não vem, que não vem..." assobia o vento.

 

o rio prossegue, sem pressa. uma canoa: ao longe... e o canoeiro. “chap-chap”... é o remo: palheta, dedilhando as águas do rio. desanoitece. "é o dia, é o dia". carros e pedestres cruzam o rio pela ponte. canoas e o batelão apodrecem nas margens do rio. músicas cantadas por passantes despertam lembranças - que não enferrujam... nem os risos! – risos são risos, em todos os tempos... assim como as lágrimas. é manhã. manhazinha, sem lágrimas.

 

o cão sem dono atira-se nas águas poluídas. nada um pouco e depois retorna ao seco. sacode-se feliz. prossigo. em minha mão a flor  se despetala.  carros passam, pessoas passam. também passo. tudo passa. o rio prossegue. o vento canta. o mar espera, irrequieto, mais à frente, pra lá das dunas... é pra lá que eu vou.



Categoria: Rememoração e Sonho
Escrito por batista filho às 09h02
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batista filho

brasileiro, parnaibano

"um raio de sol já basta para acender o fogaréu do dia"


Veredas - Gilvan Santos

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